Cine Jewel


AINDA HÁ VIDA INTELIGENTE EM HOLLYWOOD

O que pensar de uma indústria capaz de consagrar aberrações ao estilo de Ben Affleck? Bem, Hollywood pode não ser tão séria, mas é poderosa e dá lucro. E há um consolo: às vezes os artistas que vingam são bons de verdade.

Um desses astros que realmente sabe atuar é Tom Hanks, que teve a proeza de, nos anos 90, receber por duas vezes consecutivas o Oscar de melhor ator. Hanks não é mais bonito nem mais charmoso do que Tom Cruise ou Leonardodi Caprio, mas tem mais talento e atua em filmes melhores — bem melhores! Justamente por isso é que se tornou o ator mais poderoso de Hollywwod.

Poderoso e versátil, diga-se de passagem. Hanks já interpretou um publicitário em ascensão, um homossexual com HIV, um idiota que vence na vida, um astronauta com problemas no espaço, um empresário musical, um guarda penitenciário, um capitão do Exército, um náufrago, um gângster e um agente do FBI, entre outros papéis.

Fora das telas, Tom Hanks discursa em defesa do cinema inteligente. Sua entrevista à Veja desta semana revela uma mente preocupada com a brutal bestialização de Hollywood — uma fábrica de sonhos sem realismo, com tramas e personagens inverossímeis.

Pelo que já fez pelo cinema, o ator se dá ao luxo aceitar apenas um papel que considera no mínimo “fascinante”. Mesmo atuando, quer se identificar com os personagens — quer entender as opções deles, os caminhos que percorreram.

Se filmes inverossímeis e óbvios são filmes ruins, o que Tom Hanks acredita ser um filme bom? O ator diz o seguinte: “Quando vou ao cinema, espero ser arrebatado por uma história que acrescente algo à minha vida. O cinema pode ser puro entretenimento, mas não precisa ser burro. O que faz a diferença do bom cinema é que ele se assenta, acima de tudo, sobre idéias. Eu sou um espectador em busca de filmes inovadores e imprevisíveis. (...)Quero ver algo que nunca imaginei na tela”.

Não perca essa entrevista maravilhosa, em que Tom Hanks também assume ser um ator invejoso, mas indiferente ao glamour.

http://veja.abril.uol.com.br/140404/entrevista.html

Escrito por André Cintra às 14h18
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UMA DICA

Nos últimos cinco anos, o São Paulo tem sido o time mais azarado e decepcionante do mundo — mas o Fernando Damasceno continua são-paulino.

Os prazeres carnais, gastronômicos e noturnos não levarão ninguém para o Céu — e o Fernando Damasceno não está nem aí para isso.

Bolsa de Valores é o assunto mais chato e indecifrável do mundo — embora o Fernando Damasceno queira provar que é algo legal e compreensível.

O blog Tudo vale uma crônica (http://damasceno.zip.net) não era sobre cinema — mesmo assim o Fernando Damasceno resolveu resenhar filme.

Sabe o que você devia fazer? Visitar o blog do tal do Fernando Damasceno, ler as crônicas, divertir-se e perdoar o cara. No fundo, no fundo, ele sabe o que faz...

Escrito por André Cintra às 13h45
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O HOMEM QUE RENEGOU CHARLES CHAPLIN

E HÁ QUEM CONFIE NAS FACULDADES DE CINEMA...

Esta sessão do Cine Jewel é sobre Charles Chaplin e é dedicada a uma pessoa amiga e bem-humorada, que, no entanto, merece esculhambação. Não vá se incomodar, meu caro... mas você renegou Chaplin sem ter visto um mísero filme dele.

Para que os leitores não se percam, vou colocá-los a par do assunto.

Duas ou três semanas atrás, respondi a uma enquete sua. Você está no terceiro ano da faculdade de Cinema e me mandou perguntas simples, superficiais até. Faziam parte de um trabalho sobre “memória cinematográfica”.

Acho que você não queria se esforçar muito e também não queria muitas surpresas nos resultados. E mais: “minha faculdade”, escreveu o senhor, “ñ é o que vc pensa”. E olha que eu não havia pensando em nada... mas tudo bem.

Em meio às perguntas, aparece a seguinte: “Quem você considera o melhor diretor de todos os tempos?”. A verdade é que para nós, cinéfilos, não existe essa bobagem de “o” melhor diretor — estou parafraseando Sean Penn. Mas eu não estava a fim de polemizar e tasquei lá Alfred Hitchcock.

Depois veio uma bobagem mais grave: “E o maior diretor, quem é?”. Xiii... Qual a diferença entre “o melhor” e “o maior” diretor? Aliás, existe diferença, meu amigo, meu futuro cineasta? Ou você só quis encher o questionário com perguntas que parecessem mais difíceis do que realmente eram?

Pensei um pouco e opinei que o maior diretor, a meu ver, era Charles Chaplin. Terminei a enquete, mandei as respostas para você e me julguei livre da encheção.

Livre?

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No dia seguinte, chega um e-mail pedindo explicações. Queria saber o que tinha dado na minha cabecinha: “vc realmente acha que Chaplin é o maior?”, perguntava-me o senhor. “Na época do Chaplin”, respondi, “todos o conheciam, todos iam ver seus filmes. Então ele é o maior”.

Não me acusarem de distorcer ou manipular. Vou transcrever exatamente o que nosso futuro diretor respondeu:

“cacete silva!!!!! eu nunca te respeitei mas agora vc passou dos limites, hein!!!!! desde quando o Chaplin é o maior...os filmes ñ são mais mudos nem preto e brancos. ñ tem diretor hoje que se diz influenciado pelo Chaplin e tá na cara que ñ tem nada a ver. eu nunca vi e nunca vou ver um filme do Chaplin e sinceramente ñ acho que vai me fazer falta. fala sério!!!!! em que epoca vc vive? se eu ja ouvi 3 vezes o nome do chaplin na faculdade foi muito e vc fala que o cara foi o maior”

É óbvio que o senhor tem o direito de gostar de qualquer coisa, assim como me dou o direito de não concordar com suas opiniões. Ninguém vai morrer se não assistir a um filme de Chaplin, eu sei. Mas será que o autor de Luzes da Ribalta e O Circo é tão pequeno assim? Haverá no cinema uma figura tão conhecida — e tão emblemática — quanto a do carismático Carlitos?

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A discussão acontece às vésperas de uma efeméride. No próximo dia 20 se completam 115 anos do nascimento de Chaplin. Não quero te provocar, meu caro amigo e futuro cineasta, mas Sir Charles Spencer Chaplin (1889-1977) aliou humor e crítica social como ninguém.

De seus filmes saíram pelo menos cinco cenas antológicas, como aquela de Tempos Modernos em que o operário se entrega tanto ao trabalho que é tragado pela máquina. E o que dizer do beijo de Carlitos no menino interpretado por Jackie Coogan em O Garoto, primeiro longa-metragem de Chaplin? Você vai abrir mão de todos esses momentos?

Também não concordo que os filmes chaplinianos ficaram para trás. Pela simplicidade e pela ternura, o cineasta que você minimiza atraiu não apenas o público comum. Quem dera ele ter lido o Canto ao Homem do Povo — Charles Chaplin, belíssimo poema que Carlos Drummond de Andrade lhe compôs.

Gilbert Sedes foi outro que caprichou no elogio: “Chaplin estava destinado a ser, por seu gênio, o único homem universal dos tempos modernos”. E veja só, amigo: ninguém mais, ninguém menos do que George Bernard Shaw definiu seu renegado como “o único gênio criado pelo cinema”.

Se o cinema criou o gênio, Chaplin criou Carlitos. Você pode não ter visto nenhum filme mudo, mas certamente sabe quem foi o personagem vagabundo e maltrapilho que estrelou as primeiras obras-primas de Chaplin.

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Mesmo que você não curta o Carlitos, Chaplin fez pelo menos uma obra genial sem a presença do personagem. É O Grande Ditador, que eu já vi umas cinco vezes — e nem por isso deixo de me emocionar com aquele célebre discurso final. Espero os minutos passarem, acompanho as cenas com expectativa — e finalmente aparece o barbeiro judeu (Chaplin) discursando para os soldados e para o povo da Tomânia, para sua querida Hannah (Paulette Goddard), para todos nós.

Era o 14º longa-metragem de Chaplin, mas apenas o seu primeiro filme falado — acorde, amigo: ele não fez apenas cinema mudo. No “crescendo” do discurso, somos lembrados de que “pensamos em demasia e sentimos bem pouco”.

Chaplin não é apenas cinema — você tem muito a aprender com ele, meu futuro cineasta. Quem lhe disse que para fazer cinema basta ver filmes? E as idéias, surgirão de onde? Do vácuo?

Seu descartável diretor ajudou a popularizar o cinema, mas não o banalizou. Se a faculdade onde você estuda não citou nem três vezes a obra de Chaplin, desculpe-me. Isso revela muito mais de sua faculdade do que do cineasta inglês que, de tão influente, foi obrigado a sair dos Estados Unidos, acusado de ser “controvertista”. Só a vida pessoal de Chaplin daria um filme épico — e ele, de fato, recebeu uma digna cinebiografia, no começo dos anos 90.

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Em O Grande Ditador, aproveitando-se da semelhança física com Adolf Hitler, Chaplin diminui o líder alemão, ao interpretar Adenoid Hynkel, um ditador lunático e egocêntrico, mas absolutamente limitado. Também faz o papel do barbeiro judeu acometido pela amnésia. Tímido, genuíno e honesto, o barbeiro — que nem sequer tem nome — é o primeiro personagem que leva Chaplin a falar no cinema.

É bem provável que nenhuma seqüência de qualquer filme chapliniano tenha gerado tanta polêmica quanto o último discurso. Embora célebre e contundente, a fala do barbeiro surpreendeu negativamente a crítica, incapaz de dissociar o Chaplin cômico (simbolizado principalmente por Carlitos) do Chaplin politizado.

Não é filme gratuito, meu caro amigo. O diretor que você renega sem conhecer era neto de judeus, e sua mãe chamava-se Hannah, como a amada do barbeiro judeu. Se Chaplin zombou de Hitler, não foi por mero oportunismo. Mesmo extrapolando o gênero da comédia, que consagrou Chaplin, O Grande Ditador se transformou num clássico do cinema, um desses filmes que comportam, com folgas, o rótulo de obra-prima.

Lançado em 1939, era o primeiro filme inteiramente falado de Chaplin — Tempos Modernos, de 1936, tinha músicas, mas não falas. A despeito disso, o barbeiro judeu tinha algo de Carlitos, como se pode notar na cena em que é atingido na cabeça e perde o equilíbrio, cambaleando habilmente pela rua da barbearia.

Ainda vigoroso, O Grande Ditador foi exibido, em cópia restaurada, no encerramento do 52º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 2002. Repare: 2002!

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Vou torcer para que o senhor, meu caro amigo, tenha pelo menos a curiosidade de ver a cena do discurso. Você é teimoso, mas eu vou torcer mesmo assim. Porque você poderá até dizer que a fala quebra a linearidade narrativa e que a mensagem é ingênua. Mas não diga jamais que não perde nada se não conhecer Chaplin.

E não quero subestimá-lo, mas, francamente, a pior frase do discurso final é mil vezes mais interessante do que teu preconceito. Você quer ser cineasta para quê?

Escrito por André Cintra às 23h42
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