O HOMEM QUE RENEGOU CHARLES CHAPLIN
E HÁ QUEM CONFIE NAS FACULDADES DE CINEMA...
Esta sessão do Cine Jewel é sobre Charles Chaplin e é dedicada a uma pessoa amiga e bem-humorada, que, no entanto, merece esculhambação. Não vá se incomodar, meu caro... mas você renegou Chaplin sem ter visto um mísero filme dele.
Para que os leitores não se percam, vou colocá-los a par do assunto.
Duas ou três semanas atrás, respondi a uma enquete sua. Você está no terceiro ano da faculdade de Cinema e me mandou perguntas simples, superficiais até. Faziam parte de um trabalho sobre “memória cinematográfica”.
Acho que você não queria se esforçar muito e também não queria muitas surpresas nos resultados. E mais: “minha faculdade”, escreveu o senhor, “ñ é o que vc pensa”. E olha que eu não havia pensando em nada... mas tudo bem.
Em meio às perguntas, aparece a seguinte: “Quem você considera o melhor diretor de todos os tempos?”. A verdade é que para nós, cinéfilos, não existe essa bobagem de “o” melhor diretor — estou parafraseando Sean Penn. Mas eu não estava a fim de polemizar e tasquei lá Alfred Hitchcock.
Depois veio uma bobagem mais grave: “E o maior diretor, quem é?”. Xiii... Qual a diferença entre “o melhor” e “o maior” diretor? Aliás, existe diferença, meu amigo, meu futuro cineasta? Ou você só quis encher o questionário com perguntas que parecessem mais difíceis do que realmente eram?
Pensei um pouco e opinei que o maior diretor, a meu ver, era Charles Chaplin. Terminei a enquete, mandei as respostas para você e me julguei livre da encheção.
Livre?
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No dia seguinte, chega um e-mail pedindo explicações. Queria saber o que tinha dado na minha cabecinha: “vc realmente acha que Chaplin é o maior?”, perguntava-me o senhor. “Na época do Chaplin”, respondi, “todos o conheciam, todos iam ver seus filmes. Então ele é o maior”.
Não me acusarem de distorcer ou manipular. Vou transcrever exatamente o que nosso futuro diretor respondeu:
“cacete silva!!!!! eu nunca te respeitei mas agora vc passou dos limites, hein!!!!! desde quando o Chaplin é o maior...os filmes ñ são mais mudos nem preto e brancos. ñ tem diretor hoje que se diz influenciado pelo Chaplin e tá na cara que ñ tem nada a ver. eu nunca vi e nunca vou ver um filme do Chaplin e sinceramente ñ acho que vai me fazer falta. fala sério!!!!! em que epoca vc vive? se eu ja ouvi 3 vezes o nome do chaplin na faculdade foi muito e vc fala que o cara foi o maior”
É óbvio que o senhor tem o direito de gostar de qualquer coisa, assim como me dou o direito de não concordar com suas opiniões. Ninguém vai morrer se não assistir a um filme de Chaplin, eu sei. Mas será que o autor de Luzes da Ribalta e O Circo é tão pequeno assim? Haverá no cinema uma figura tão conhecida — e tão emblemática — quanto a do carismático Carlitos?
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A discussão acontece às vésperas de uma efeméride. No próximo dia 20 se completam 115 anos do nascimento de Chaplin. Não quero te provocar, meu caro amigo e futuro cineasta, mas Sir Charles Spencer Chaplin (1889-1977) aliou humor e crítica social como ninguém.
De seus filmes saíram pelo menos cinco cenas antológicas, como aquela de Tempos Modernos em que o operário se entrega tanto ao trabalho que é tragado pela máquina. E o que dizer do beijo de Carlitos no menino interpretado por Jackie Coogan em O Garoto, primeiro longa-metragem de Chaplin? Você vai abrir mão de todos esses momentos?
Também não concordo que os filmes chaplinianos ficaram para trás. Pela simplicidade e pela ternura, o cineasta que você minimiza atraiu não apenas o público comum. Quem dera ele ter lido o Canto ao Homem do Povo — Charles Chaplin, belíssimo poema que Carlos Drummond de Andrade lhe compôs.
Gilbert Sedes foi outro que caprichou no elogio: “Chaplin estava destinado a ser, por seu gênio, o único homem universal dos tempos modernos”. E veja só, amigo: ninguém mais, ninguém menos do que George Bernard Shaw definiu seu renegado como “o único gênio criado pelo cinema”.
Se o cinema criou o gênio, Chaplin criou Carlitos. Você pode não ter visto nenhum filme mudo, mas certamente sabe quem foi o personagem vagabundo e maltrapilho que estrelou as primeiras obras-primas de Chaplin.
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Mesmo que você não curta o Carlitos, Chaplin fez pelo menos uma obra genial sem a presença do personagem. É O Grande Ditador, que eu já vi umas cinco vezes — e nem por isso deixo de me emocionar com aquele célebre discurso final. Espero os minutos passarem, acompanho as cenas com expectativa — e finalmente aparece o barbeiro judeu (Chaplin) discursando para os soldados e para o povo da Tomânia, para sua querida Hannah (Paulette Goddard), para todos nós.
Era o 14º longa-metragem de Chaplin, mas apenas o seu primeiro filme falado — acorde, amigo: ele não fez apenas cinema mudo. No “crescendo” do discurso, somos lembrados de que “pensamos em demasia e sentimos bem pouco”.
Chaplin não é apenas cinema — você tem muito a aprender com ele, meu futuro cineasta. Quem lhe disse que para fazer cinema basta ver filmes? E as idéias, surgirão de onde? Do vácuo?
Seu descartável diretor ajudou a popularizar o cinema, mas não o banalizou. Se a faculdade onde você estuda não citou nem três vezes a obra de Chaplin, desculpe-me. Isso revela muito mais de sua faculdade do que do cineasta inglês que, de tão influente, foi obrigado a sair dos Estados Unidos, acusado de ser “controvertista”. Só a vida pessoal de Chaplin daria um filme épico — e ele, de fato, recebeu uma digna cinebiografia, no começo dos anos 90.
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Em O Grande Ditador, aproveitando-se da semelhança física com Adolf Hitler, Chaplin diminui o líder alemão, ao interpretar Adenoid Hynkel, um ditador lunático e egocêntrico, mas absolutamente limitado. Também faz o papel do barbeiro judeu acometido pela amnésia. Tímido, genuíno e honesto, o barbeiro — que nem sequer tem nome — é o primeiro personagem que leva Chaplin a falar no cinema.
É bem provável que nenhuma seqüência de qualquer filme chapliniano tenha gerado tanta polêmica quanto o último discurso. Embora célebre e contundente, a fala do barbeiro surpreendeu negativamente a crítica, incapaz de dissociar o Chaplin cômico (simbolizado principalmente por Carlitos) do Chaplin politizado.
Não é filme gratuito, meu caro amigo. O diretor que você renega sem conhecer era neto de judeus, e sua mãe chamava-se Hannah, como a amada do barbeiro judeu. Se Chaplin zombou de Hitler, não foi por mero oportunismo. Mesmo extrapolando o gênero da comédia, que consagrou Chaplin, O Grande Ditador se transformou num clássico do cinema, um desses filmes que comportam, com folgas, o rótulo de obra-prima.
Lançado em 1939, era o primeiro filme inteiramente falado de Chaplin — Tempos Modernos, de 1936, tinha músicas, mas não falas. A despeito disso, o barbeiro judeu tinha algo de Carlitos, como se pode notar na cena em que é atingido na cabeça e perde o equilíbrio, cambaleando habilmente pela rua da barbearia.
Ainda vigoroso, O Grande Ditador foi exibido, em cópia restaurada, no encerramento do 52º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 2002. Repare: 2002!
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Vou torcer para que o senhor, meu caro amigo, tenha pelo menos a curiosidade de ver a cena do discurso. Você é teimoso, mas eu vou torcer mesmo assim. Porque você poderá até dizer que a fala quebra a linearidade narrativa e que a mensagem é ingênua. Mas não diga jamais que não perde nada se não conhecer Chaplin.
E não quero subestimá-lo, mas, francamente, a pior frase do discurso final é mil vezes mais interessante do que teu preconceito. Você quer ser cineasta para quê?
Escrito por André Cintra às 23h42
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