Cine Jewel


AINDA HÁ VIDA INTELIGENTE EM HOLLYWOOD

O que pensar de uma indústria capaz de consagrar aberrações ao estilo de Ben Affleck? Bem, Hollywood pode não ser tão séria, mas é poderosa e dá lucro. E há um consolo: às vezes os artistas que vingam são bons de verdade.

Um desses astros que realmente sabe atuar é Tom Hanks, que teve a proeza de, nos anos 90, receber por duas vezes consecutivas o Oscar de melhor ator. Hanks não é mais bonito nem mais charmoso do que Tom Cruise ou Leonardodi Caprio, mas tem mais talento e atua em filmes melhores — bem melhores! Justamente por isso é que se tornou o ator mais poderoso de Hollywwod.

Poderoso e versátil, diga-se de passagem. Hanks já interpretou um publicitário em ascensão, um homossexual com HIV, um idiota que vence na vida, um astronauta com problemas no espaço, um empresário musical, um guarda penitenciário, um capitão do Exército, um náufrago, um gângster e um agente do FBI, entre outros papéis.

Fora das telas, Tom Hanks discursa em defesa do cinema inteligente. Sua entrevista à Veja desta semana revela uma mente preocupada com a brutal bestialização de Hollywood — uma fábrica de sonhos sem realismo, com tramas e personagens inverossímeis.

Pelo que já fez pelo cinema, o ator se dá ao luxo aceitar apenas um papel que considera no mínimo “fascinante”. Mesmo atuando, quer se identificar com os personagens — quer entender as opções deles, os caminhos que percorreram.

Se filmes inverossímeis e óbvios são filmes ruins, o que Tom Hanks acredita ser um filme bom? O ator diz o seguinte: “Quando vou ao cinema, espero ser arrebatado por uma história que acrescente algo à minha vida. O cinema pode ser puro entretenimento, mas não precisa ser burro. O que faz a diferença do bom cinema é que ele se assenta, acima de tudo, sobre idéias. Eu sou um espectador em busca de filmes inovadores e imprevisíveis. (...)Quero ver algo que nunca imaginei na tela”.

Não perca essa entrevista maravilhosa, em que Tom Hanks também assume ser um ator invejoso, mas indiferente ao glamour.

http://veja.abril.uol.com.br/140404/entrevista.html

Escrito por André Cintra às 14h18
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UMA DICA

Nos últimos cinco anos, o São Paulo tem sido o time mais azarado e decepcionante do mundo — mas o Fernando Damasceno continua são-paulino.

Os prazeres carnais, gastronômicos e noturnos não levarão ninguém para o Céu — e o Fernando Damasceno não está nem aí para isso.

Bolsa de Valores é o assunto mais chato e indecifrável do mundo — embora o Fernando Damasceno queira provar que é algo legal e compreensível.

O blog Tudo vale uma crônica (http://damasceno.zip.net) não era sobre cinema — mesmo assim o Fernando Damasceno resolveu resenhar filme.

Sabe o que você devia fazer? Visitar o blog do tal do Fernando Damasceno, ler as crônicas, divertir-se e perdoar o cara. No fundo, no fundo, ele sabe o que faz...

Escrito por André Cintra às 13h45
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O HOMEM QUE RENEGOU CHARLES CHAPLIN

E HÁ QUEM CONFIE NAS FACULDADES DE CINEMA...

Esta sessão do Cine Jewel é sobre Charles Chaplin e é dedicada a uma pessoa amiga e bem-humorada, que, no entanto, merece esculhambação. Não vá se incomodar, meu caro... mas você renegou Chaplin sem ter visto um mísero filme dele.

Para que os leitores não se percam, vou colocá-los a par do assunto.

Duas ou três semanas atrás, respondi a uma enquete sua. Você está no terceiro ano da faculdade de Cinema e me mandou perguntas simples, superficiais até. Faziam parte de um trabalho sobre “memória cinematográfica”.

Acho que você não queria se esforçar muito e também não queria muitas surpresas nos resultados. E mais: “minha faculdade”, escreveu o senhor, “ñ é o que vc pensa”. E olha que eu não havia pensando em nada... mas tudo bem.

Em meio às perguntas, aparece a seguinte: “Quem você considera o melhor diretor de todos os tempos?”. A verdade é que para nós, cinéfilos, não existe essa bobagem de “o” melhor diretor — estou parafraseando Sean Penn. Mas eu não estava a fim de polemizar e tasquei lá Alfred Hitchcock.

Depois veio uma bobagem mais grave: “E o maior diretor, quem é?”. Xiii... Qual a diferença entre “o melhor” e “o maior” diretor? Aliás, existe diferença, meu amigo, meu futuro cineasta? Ou você só quis encher o questionário com perguntas que parecessem mais difíceis do que realmente eram?

Pensei um pouco e opinei que o maior diretor, a meu ver, era Charles Chaplin. Terminei a enquete, mandei as respostas para você e me julguei livre da encheção.

Livre?

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No dia seguinte, chega um e-mail pedindo explicações. Queria saber o que tinha dado na minha cabecinha: “vc realmente acha que Chaplin é o maior?”, perguntava-me o senhor. “Na época do Chaplin”, respondi, “todos o conheciam, todos iam ver seus filmes. Então ele é o maior”.

Não me acusarem de distorcer ou manipular. Vou transcrever exatamente o que nosso futuro diretor respondeu:

“cacete silva!!!!! eu nunca te respeitei mas agora vc passou dos limites, hein!!!!! desde quando o Chaplin é o maior...os filmes ñ são mais mudos nem preto e brancos. ñ tem diretor hoje que se diz influenciado pelo Chaplin e tá na cara que ñ tem nada a ver. eu nunca vi e nunca vou ver um filme do Chaplin e sinceramente ñ acho que vai me fazer falta. fala sério!!!!! em que epoca vc vive? se eu ja ouvi 3 vezes o nome do chaplin na faculdade foi muito e vc fala que o cara foi o maior”

É óbvio que o senhor tem o direito de gostar de qualquer coisa, assim como me dou o direito de não concordar com suas opiniões. Ninguém vai morrer se não assistir a um filme de Chaplin, eu sei. Mas será que o autor de Luzes da Ribalta e O Circo é tão pequeno assim? Haverá no cinema uma figura tão conhecida — e tão emblemática — quanto a do carismático Carlitos?

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A discussão acontece às vésperas de uma efeméride. No próximo dia 20 se completam 115 anos do nascimento de Chaplin. Não quero te provocar, meu caro amigo e futuro cineasta, mas Sir Charles Spencer Chaplin (1889-1977) aliou humor e crítica social como ninguém.

De seus filmes saíram pelo menos cinco cenas antológicas, como aquela de Tempos Modernos em que o operário se entrega tanto ao trabalho que é tragado pela máquina. E o que dizer do beijo de Carlitos no menino interpretado por Jackie Coogan em O Garoto, primeiro longa-metragem de Chaplin? Você vai abrir mão de todos esses momentos?

Também não concordo que os filmes chaplinianos ficaram para trás. Pela simplicidade e pela ternura, o cineasta que você minimiza atraiu não apenas o público comum. Quem dera ele ter lido o Canto ao Homem do Povo — Charles Chaplin, belíssimo poema que Carlos Drummond de Andrade lhe compôs.

Gilbert Sedes foi outro que caprichou no elogio: “Chaplin estava destinado a ser, por seu gênio, o único homem universal dos tempos modernos”. E veja só, amigo: ninguém mais, ninguém menos do que George Bernard Shaw definiu seu renegado como “o único gênio criado pelo cinema”.

Se o cinema criou o gênio, Chaplin criou Carlitos. Você pode não ter visto nenhum filme mudo, mas certamente sabe quem foi o personagem vagabundo e maltrapilho que estrelou as primeiras obras-primas de Chaplin.

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Mesmo que você não curta o Carlitos, Chaplin fez pelo menos uma obra genial sem a presença do personagem. É O Grande Ditador, que eu já vi umas cinco vezes — e nem por isso deixo de me emocionar com aquele célebre discurso final. Espero os minutos passarem, acompanho as cenas com expectativa — e finalmente aparece o barbeiro judeu (Chaplin) discursando para os soldados e para o povo da Tomânia, para sua querida Hannah (Paulette Goddard), para todos nós.

Era o 14º longa-metragem de Chaplin, mas apenas o seu primeiro filme falado — acorde, amigo: ele não fez apenas cinema mudo. No “crescendo” do discurso, somos lembrados de que “pensamos em demasia e sentimos bem pouco”.

Chaplin não é apenas cinema — você tem muito a aprender com ele, meu futuro cineasta. Quem lhe disse que para fazer cinema basta ver filmes? E as idéias, surgirão de onde? Do vácuo?

Seu descartável diretor ajudou a popularizar o cinema, mas não o banalizou. Se a faculdade onde você estuda não citou nem três vezes a obra de Chaplin, desculpe-me. Isso revela muito mais de sua faculdade do que do cineasta inglês que, de tão influente, foi obrigado a sair dos Estados Unidos, acusado de ser “controvertista”. Só a vida pessoal de Chaplin daria um filme épico — e ele, de fato, recebeu uma digna cinebiografia, no começo dos anos 90.

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Em O Grande Ditador, aproveitando-se da semelhança física com Adolf Hitler, Chaplin diminui o líder alemão, ao interpretar Adenoid Hynkel, um ditador lunático e egocêntrico, mas absolutamente limitado. Também faz o papel do barbeiro judeu acometido pela amnésia. Tímido, genuíno e honesto, o barbeiro — que nem sequer tem nome — é o primeiro personagem que leva Chaplin a falar no cinema.

É bem provável que nenhuma seqüência de qualquer filme chapliniano tenha gerado tanta polêmica quanto o último discurso. Embora célebre e contundente, a fala do barbeiro surpreendeu negativamente a crítica, incapaz de dissociar o Chaplin cômico (simbolizado principalmente por Carlitos) do Chaplin politizado.

Não é filme gratuito, meu caro amigo. O diretor que você renega sem conhecer era neto de judeus, e sua mãe chamava-se Hannah, como a amada do barbeiro judeu. Se Chaplin zombou de Hitler, não foi por mero oportunismo. Mesmo extrapolando o gênero da comédia, que consagrou Chaplin, O Grande Ditador se transformou num clássico do cinema, um desses filmes que comportam, com folgas, o rótulo de obra-prima.

Lançado em 1939, era o primeiro filme inteiramente falado de Chaplin — Tempos Modernos, de 1936, tinha músicas, mas não falas. A despeito disso, o barbeiro judeu tinha algo de Carlitos, como se pode notar na cena em que é atingido na cabeça e perde o equilíbrio, cambaleando habilmente pela rua da barbearia.

Ainda vigoroso, O Grande Ditador foi exibido, em cópia restaurada, no encerramento do 52º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 2002. Repare: 2002!

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Vou torcer para que o senhor, meu caro amigo, tenha pelo menos a curiosidade de ver a cena do discurso. Você é teimoso, mas eu vou torcer mesmo assim. Porque você poderá até dizer que a fala quebra a linearidade narrativa e que a mensagem é ingênua. Mas não diga jamais que não perde nada se não conhecer Chaplin.

E não quero subestimá-lo, mas, francamente, a pior frase do discurso final é mil vezes mais interessante do que teu preconceito. Você quer ser cineasta para quê?

Escrito por André Cintra às 23h42
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DUAS NOTINHAS

1) Minha noiva também tem um blog sobre cinema. Chama-se A dupla vida de Veronique, em homenagem ao belíssimo filme do polonês Krzysztof Kieslowski. É um blog melhor e bem mais inteligente do que o Cine Jewel, embora a Vê e eu não tenhamos o hábito de atualizar constantemente. Dêem um pulinho lá, clicando no link que fica em cima desta página.

2) O público tem o direito da escolha, mas não consigo entender por que Narradores de Javé fracassou na bilheteria. Javé foi um dos três melhores filmes nacionais de 2003, tem uma história engraçada e não é tão denso como o nome talvez sugira. Quem viu não pode negar: a atuação de José Dumont é esplêndida, encantadora. Numa fase favorável aos filmes brasileiros, faltou um título melhor ao longa-metragem de Eliane Caffé — e, claro, o selo da Globo Filmes. O documentário Na Captura dos Friedmans, de Andrew Jarecki, viveu situação semelhante. Embora excepcional, patinou ao chegar ao público brasileiro e não ficou nem um mês em cartaz. Eu resenhei Friedmans para o Omelete. Se você tiver curiosidade de ler o texto, o link é este:

(www.omelete.com.br/cinema/artigos/base_para_artigos.asp?artigo=1860)

Escrito por André Cintra às 16h02
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DE VOLTA


O Cine Jewel parou por um mês, assim como parado (mas para reformas) está o Cine Belas Artes, na Rua da Consolação. Cabem duas explicações: eu nunca gostei do Belas Artes e não prometi atualizações periódicas Cine Jewel.

Tanto não prometi que, nestas semanas, nada fiz de realmente importante para justificar a paralisação do blog. Não entrei em depressão, não inventei o emplastro Brás Cubas, nem matei Liberty Valance. Foram semanas em que apenas a correria ficou um pouco maior, por causa dos trabalhos acadêmicos e profissionais.

Mas este é um blog de cinema, e eu não quero falar mais de mim. Comento, abaixo, dois filmes que estão em cartaz e que tiveram destaque na mídia, mas não me agradaram. Continuo achando que o período pós-Oscar não é dos melhores para o cinema — a maioria das estréias deixa a desejar.

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A PAIXÃO DE CRISTO: o controverso e deprimente filme de Mel Gibson irritou judeus do mundo inteiro, mas não é exatamente anti-semita. Quem tem o direito de reclamar — e muito — são os homossexuais, já que Gibson insiste, gratuitamente, em sua ira homofóbica. Satã (Rosalinda Celentano) é um andrógino repleto de trejeitos, e o hesitante rei Herodes (Luca De Dominicis) é uma personalidade igualmente afetada. A Paixão relata as últimas horas de Jesus Cristo (o fraco Jim Caviezel), desde o momento em que Ele é delatado, passando pelo calvário e pela crucificação. Apesar da ótima maquiagem e da razoável fotografia — que garantem um realismo sadomasoquista —, trata-se de um filme medíocre e exagerado. É preciso ter estômago, ou muita fé, para aceitar a maioria das cenas. Inácio Araújo não está longe da razão quando diz que, em A Paixão, não há sequer “um instante de grandeza, ou de beleza, ou de talento”. E chega dessa história de “melhor filme sobre Jesus Cristo”. A Paixão não chega aos pés de O Evangelho Segundo S. Mateus, filmaço do italiano Pier Paolo Pasolini.

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BENJAMIM: o segundo romance de Chico Buarque, lançado em 1995, ganha esta primária versão cinematográfica. Enquanto escrevia o livro, Chico dizia-se guiar por imagens, já aproximando Benjamim de um filme. É o excelente ator Paulo José que vive Benjamim Zambraia, um bem-sucedido modelo fotográfico nos anos 70, mas agora esquecido e alienado. Um dia, ele encontra — e depois passa a cortejar — a jovem e bela Ariela (Cléo Pires), que é incrivelmente parecida com um amor antigo de Benjamim. As memórias começam, então, a perturbá-lo, enquanto vários homens vão passando pela vida de Ariela. O filme tem breves participações de Zeca Pagodinho e Wando, que, aliás, nada acrescentam à história. Chico Buarque não dá sorte com o cinema. A versão de Ruy Guerra para Estorvo era confusa e esquisitona. Em Benjamim, vale destacar somente as atuações de Paulo José e Cléo Pires. Jorge Furtado deu uma força no roteiro, mas nem ele conseguiu salvar a lavoura. É um filme tão modesto que parece ter sido realizado por amadores. Certamente vai ser esquecido daqui a poucos meses.

Escrito por André Cintra às 15h35
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LEMBRANÇAS DO OSCAR 2004

Não quero julgar os últimos vencedores — ou perdedores — do Oscar. A Academia (assim como eu, assim como você) tem o direito de escolher quem quiser. Se desaprovamos o Oscar, basta não acompanharmos a cerimônia, nem irmos atrás dos vencedores.

Seja lá quem ganhou e quem perdeu, a única coisa lamentável é que o Oscar é uma grife. As locadoras destacam que este e aquele filme tiveram indicação ao Oscar, ou mesmo faturaram alguma estatueta. Muita gente vai ao cinema guiando-se na quantidade de prêmios que o filme levou.

Mas isso diz muito mais do público do que do Oscar. As pessoas que acusam a Academia de parcialidade são as mesmas que alugam filmes de acordo com a premiação.

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Em todo caso, o Oscar ainda é algo que eu adoro. Por mais que tudo pareça tão artificial — da maquiagem às palavras, do sorriso aos aplausos —, prefiro “entrar no clima” e me divertir durante a transmissão.

Não quer dizer que eu concorde com as indicações ou com os prêmios da Academia — aliás, quase ninguém concorda. Se bem que quase ninguém vê os filmes que concorrem e, ainda assim, quer dar opinião.

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Dizem que O Retorno do Rei, com suas 11 estatuetas em 11 indicações, deixou a cerimônia tediosa e decepcionante. Eu já acho que, se não fosse a parte final da trilogia O Senhor dos Anéis, o Oscar 2004 ficaria terrivelmente pobre.

Havia tanto filme ruim na parada que é um consolo saber que o esforço de Peter Jackson e de sua equipe foi recompensado. Não gostei de A Sociedade do Anel, não vi As Duas Torres, mas fiquei muito impressionado com O Retorno do Rei.

Se a trilogia Matrix desandou do começo ao fim, a série do Anel parece ter ganhado muita vitalidade filme após filme.

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E não importa que Cidade de Deus tenha sido figurante no domingo. Nosso cinema ficou no limbo durante anos e só recentemente consolidou sua retomada — justamente com o filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund. As quatro indicações já são consagradoras.

Além disso, por acaso a gente ia gostar mais de Cidade de Deus devido a um prêmio?

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A imagem que guardarei desse Oscar não é uma lágrima, um sorriso mais distinto, um abraço caloroso. É a monumental Charlize Theron desfilando após receber sua estatueta de melhor atriz. Não vou esquecer suas pernas e seus lábios tão cedo, ainda que não me lembre, agora, de nenhuma de suas palavras.

Escrito por André Cintra às 12h53
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O LIMITE DA OUSADIA

MESMO AMBIENTADO NA ERA MEIJI, “O ÚLTIMO SAMURAI” É BEM MAIS FIEL A HOLLYWOOD DO QUE AO JAPÃO PRÉ-MODERNO

Os samurais desapareceram do mapa há mais de cem anos, mas sua cultura, disciplinada e coletivista, ganha agora uma homenagem de Hollywood. É a superprodução O Último Samurai.

Como ode, é uma obra aceitável, ambientada nos primórdios da Era Meiji (1868-1912), durante a qual o Japão se alfabetizou, construiu estradas de ferro e iniciou sua magnífica modernização.

O que mata são os clichês à exaustão, como as frases geniais ou reveladoras que personagens costumam soltar na hora da morte. Elas ocorrem duas vezes em O Último Samurai, e em nenhuma delas é verossímil.

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O filme conta a saga do capitão Nathan Algren (Tom Cruise), um herói da Guerra Civil Americana que aceita treinar o Exército japonês, formado por camponeses despreparados. Eles vão enfrentar “os selvagens samurais”, que discordam das rápidas mudanças que estão ocorrendo no país.

Logo no primeiro combate, porém, os soldados do governo são vencidos, e Nathan é capturado. Nos dias seguintes — que viram semanas, meses... —, ele descobre os princípios e as virtudes dos samurais, passando a respeitá-los. Convicto agora de que selvagem é o governo, e não os samurais, ele resolve lutar contra o Exército japonês.

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A reviravolta lembra o fenômeno da “síndrome de Estolcomo”, em que o seqüestrado se sente bem-tratado pelos seqüestradores, a ponto de defendê-los e até segui-los. Psicólogos garantem que essa síndrome é negativa, porque a pessoa se esquece de que o seqüestro é, por natureza, um ato criminoso e violento.

Mas o que ocorre com Nathan Algren é pura epifania. Ao lado dos samurais (que de fato o tratam com muito zelo e atenção), o capitão sente remorso dos massacres que cometeu em sua terra natal e tem a chance de ir à forra.

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São impressionantes e muito bonitas as cenas de combate. É o que O Último Samurai tem de melhor, de mais realista, mesmo exagerando um pouco na violência. Mas será que não é esse exagero o que determina a singularidade das filmagens?

Com exceção da homenagem aos samurais, o filme é aquilo que se espera do cinemão americano, do blockbuster, das superproduções. A certa altura, Nathan fica emboscado contra quatro oficiais do governo. Todos sabemos que ele vai se livrar, de modo que, nessas cenas, o que vale é a criatividade, é saber o como o herói se fez vitorioso. E a seqüência até que impressiona. Nathan se safa de uma maneira tão fantástica, tão videoclíptica, que o confronto é reprisado.

Isso mesmo! Assistimos à cena de novo, por outros ângulos, como se estivéssemos vendo um jogo de futebol na TV. É bem verdade que a direção de arte e a fotografia do filme estão entrosadas, a serviço da história. Só que repetir a cena assim é presunçoso demais, não?

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Outra opção duvidosa: a escalação de Tom Cruise para o papel principal. Numa trama com requintes sentimentais horríveis, melodramáticos, o ator se sai melhor nesses momentos do que nas cenas de combate. É no mínimo estranho vê-lo com roupas de guerra, montado num cavalo em ação. Não cola.

Talvez porque John Wayne faça mesmo falta. Não há mais atores que conseguem convencer na pele de personagens durões mas emotivos, como o Ethan Edwards de Rastros de Ódio.

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Em outra cena de O Último Samurai, o imperador Meiji (interpretado lamentavelmente por Shichinosuke Nakamura) adverte: o Japão precisa, sim, se modernizar — mas sem esquecer a própria identidade, única, histórica.

Mas Meiji está falando por quem? Pelo Japão pré-moderno ou por Hollywood? Onde essa relação entre modernidade e tradição anda mais escancarada?

Hollywood, mais do que nunca, vem a público apostando em efeitos especiais. As cenas de combate têm tal agilidade e são tão sensacionais que parecem uma mistura de videogame com videoclipe. A isso se somam clichês, filosofias baratas e dilemas vagos, a exemplo do que ocorreu com as terríveis continuações de Matrix.

Como não lembrar de O Resgate do Soldado Ryan, cujas fantásticas cenas do desembarque na Normandia — e praticamente só elas — garantiram o Oscar de direção a Steven Spielberg? Não que o criador de ET e recriador dos dinossauros não esteja à altura do prêmio; mas o filme exigia tanto assim dele?

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O recado foi dado ali, em 1998, quando anunciaram a estatueta para Spielberg. A próxima edição do Oscar, que acontece no domingo, já reverenciou as produções fantásticas, hiper-realistas — por sorte, diga-se, do nosso Cidade de Deus, que abocanhou quatro indicações inéditas no cinema nacional. Mesmo não sendo a vedete da premiação, Cidade de Deus talvez seja o único filme realmente ousado e polêmico a chamar atenção.

Em contrapartida, o sofrível e entediante Mestre dos Mares concorre em dez categorias. Mesmo estrelado pelo ótimo Russel Crowe, o elenco do filme não recebeu nenhuma indicação sequer — e aqui, sim, a Academia foi serena. Porque, nas superproduções de hoje, a ordem é ousadia técnica, e quase não há reconhecimento para atuações brilhantes. A moda é arriscar cenas moderninhas e ousadas.

O Último Samurai ilustra à perfeição o que é Hollywood hoje. Mas é apenas um ponto-de-partida, arriscado, para entendermos as origens do Japão moderno.

Tente esquecer o melodrama por trás do enredo e não dê bola para a cena final. O filme vai ficar mais divertido — e bem menos bobo.

Escrito por André Cintra às 17h54
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QUEM AMA O FEIO...

“BELEZA AMERICANA” REVELA A FACE MAIS DOENTIA DO “AMERICAN WAY OF LIFE”

Era uma manhã qualquer na casa dos Burnham.

O pai, Lester (Kevin Spacey), acordou normal, dando a entender que tinha dormido bem. Foi ao banheiro, ligou o chuveiro e tomou uma ducha. No meio do banho, aproveitou para se masturbar. Funcionário de uma agência de propaganda, chefe de uma família classe média, não estava preocupado com compromissos. A masturbação era o momento do dia que mais o alegrava.

A mãe, Carolyn (Annette Bening), acordou otimista. Era corretora de imóveis, estava convicta de que, naquela manhã, ia vender certa mansão luxuosa e faturar uma supercomissão. Antes de se dirigir ao trabalho, ajeitou o próprio visual, cantou, sorriu para si mesma. Não parecia ser a mulher que, horas depois, frustrada, teria uma crise nervosa e choraria copiosamente. Não imaginava que, independentemente dela, a mansão não convenceria cliente algum.

A filha adolescente, Jane (Thora Birch), acordou de mau humor. Não queria conversar no café da manhã em família e, se pudesse, nem mesmo teria visto os pais. Queria era correr para a escola, onde fazia o colegial e era uma dessas ridículas dançarinas que se apresentam nos intervalos de jogos de basquete. Nada a fazia sentir-se à vontade em casa. Envergonhava-se do pai “só por ele existir”.

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É bom não se confundir com o título. Beleza Americana (American Beauty, EUA, 1999) mostra uma família típica dos Estados Unidos em que as belezas são quase sempre artificiais.

O filme de Sam Mendes (diretor também de Estrada para Perdição) põe em xeque o “american way of life” e seu lema — segundo o qual, “para ser feliz, deve-se projetar uma imagem de felicidade”.

Porque projeções podem valer fora de casa, em lugares onde a encenação é disfarçável. Mas dentro do lar, no íntimo, a sociedade americana, simbolizada pelos Burnham, derrapa na imaturidade, padecendo diariamente de seus vícios e de suas fobias.

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Sam Mendes não é louco de negar as garantias do modo de vida americano. A classe média tem, sim, conforto, estabilidade financeira e status — nada disso é aparência. Só que, conforme o casamento avança, essas realizações materiais podem até devastar os vínculos familiares.

É a cena-chave de Beleza Americana: Lester, com uma garrafa de cerveja à mão, surpreende Carolyn, leva-a para o sofá e tenta seduzi-la. A esposa o inibe, com medo de que caia bebida no móvel que custou milhares de dólares. A tentativa de reanimar o casamento acaba em outra briga do casal. Discussões são freqüentes; amor, não.

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Todos os Burnham têm problemas, muitos problemas; só que os pais chegam a parecer mais medíocres do que a filha rebelde. Não é com a família que ela quer se identificar, mas, sim, com o sensível Rick (Wes Bentley), o novo vizinho, de 18 anos, viciado em filmagens amadoras e usuário de drogas.

Nesse universo hipócrita e desleal, o amigo (e depois namorado) de Jane é o menos vazio. Mesmo convivendo com pessoas bem aparentadas, carros do ano, roupas e casas vistosas, é nas coisas simples que Rick percebe beleza. Belo é, por exemplo, o saco branco que ele filmou em dia de ventania — um saco que dançava no ar e no chão, “como uma criança que chama para brincar”.

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No extremo oposto de Rick aparece Ângela (Mena Suvari), a amiga mais próxima de Jane. Rick se nutre da simplicidade para alcançar uma beleza. O belo, nesse caso, é algo que, de tão profundo, parece insuportável. Para Ângela, ao contrário, basta a superfície, a aparência. Não há essência, “não há nada pior do que ser comum”, ainda que o incomum seja forjado. Sem pudor, Ângela se justifica para Jane: “Se gente que eu não conheço me olha e quer me comer, significa que tenho chance de ser modelo. E isso é ótimo”.

Loira, sensual e desinibida, Ângela não influencia a filha dos Burnham, mas desperta atração no pai da amiga. Lester sonha com Ângela e faz dela sua musa sexual, transformando o desejo em motivação.

Beleza Americana sugere que, a certa altura do “american way if life”, nada motiva mais do que a infidelidade. Seja como aventura ou como novidade, o adultério, experimentado por Lester e Carolyn, consegue provocar a sensação mais plena possível de felicidade. Pode ser feio e imoral, mas, aos Burnham, bonito parece.

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Talvez tudo o que parece não seja, e pouco vale essa sensação efêmera de que as coisas estão bem. Na cena final do filme, um personagem, desconhecendo a iminência de uma tragédia pessoal, repete para si mesmo que se sente ótimo. Não há certezas para os personagens do “american way if life”.

Há quem tenha exaltado o recente Dogville e seu antiamericanismo — eu próprio adorei o filme de Lars von Trier. Mas, para entender a face mais doentia dos Estados Unidos, Bezela Americana é insuperável.



Escrito por André Cintra às 04h00
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DUAS CITAÇÕES, DUAS PERGUNTAS

Esta é a primeira “sessão” do Cine Jewel, meu blog sobre cinema. Convém não me alongar muito, porque, a exemplo de Brás Cubas, “eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado”.

Então, vamos às duas perguntas — e às duas respostas — iniciais...

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Por que o blog?
Para escrever sobre cinema. Para compensar minha baixa produção jornalística e crítica. Para ocupar meu tempo livre. Para cumprir a promessa que fiz à minha namorada. Para falar com os amigos. Para me divertir.

Por que “Cine Jewel”?
Jewel é o cinema-personagem de A Rosa Púrpura do Cairo, meu filme preferido.

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Alguém (talvez Paulo Leminski) já disse que devemos ir ao cinema com extrema disposição, como quem vai ao bar, à igreja, ao puteiro. A vantagem é que um filme não pode fazer tão mal quanto o álcool, Deus e as putas.

Sejam bem-vindos ao Cine Jewel.

Escrito por André Cintra às 13h36
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